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Frases de Demétrio Sena - Magé-RJ.

1.828 frases

SOU ANIMADOR CULTURAL Demétrio Sena, Magé - RJ. Sou animador cultural do Estado do Rio de Janeiro. Muitos colegas têm vergonha de anunciar publicamente sua função, mas esse nunca foi meu caso. Em meu entender, o governo do estado é que tem de sentir vergonha do descaso com que…
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SOU ANIMADOR CULTURAL Demétrio Sena, Magé - RJ. Sou animador cultural do Estado do Rio de Janeiro. Muitos colegas têm vergonha de anunciar publicamente sua função, mas esse nunca foi meu caso. Em meu entender, o governo do estado é que tem de sentir vergonha do descaso com que trata profissionais da cultura e da cidadania que atuam na educação. O governo sonega os nossos direitos naturais e adquiridos em quase três décadas de atuação nas escolas públicas estaduais, e nos anula dentro do sistema. É um descaso que passa pela remuneração extremamente defasada, uma constante ameaça de nossa extinção e a falta de recursos básicos, mínimos, para o desenvolvimento de projetos e ações nas unidades de lotação. Temos uma história bonita. Cheia de realizações culturais e de cidadania dentro e fora dos ambientes formais de trabalho. São testemunhas os alunos, pais de alunos, professores e demais funcionários. Também são testemunhas as estações de metrô e os arcos da Lapa. Os festejos tradicionais do interior do estado e milhares de outros espaços, ambientes e manifestações. A Secretaria Estadual de Educação sempre contou conosco para deixar sua marca - digo; nossa marca - nos eventos de massa, como diariamente nas escolas, promovendo arte; cultura; cidadania entre os alunos. Parece que agora, tudo o que o governo do estado quer é que apaguemos a luz e saiamos em silêncio, para não comprometê-lo politicamente. Muitos de nós fizeram isso, vencidos pelo cansaço, mas como tantos outros insistem em ficar - como é meu caso -, sonhando com a volta dos velhos tempos, são muitas as armadilhas oficiais - via setor jurídico - para forjar ilegalidade à nossa existência e nos expulsar de uma vez por todas. Já não há no sistema, um setor que responda por nós. Não temos mais coordenador regional nem articuladores. Nenhum recurso chega de qualquer canto, para desenvolvermos projetos, e parece até que as direções escolares são orientadas a dificultar nossos trabalho, não oferecendo as mínimas condições materiais, e nos deixando sem endereço dentro das unidades escolares, uma vez que, na maioria dos casos, tiraram nossas salas de planejamento e nos puseram para rodar pelos prédios, sem direção nem destino. Não temos acesso a quase nada, incluindo computador e internet, e querem sempre que atuemos como animadores de festinhas pontuais ou ensaiadores de alunos para seus professores, quando esses promovem pequenas comemorações em sala de aula. Enfim, sãos várias as tentativas de tirar nossa identidade, anular ou desqualificar nosso trabalho e acabar com o sentido de nossa presença no sistema e nas escolas. Ainda bem que alguns de nós mantiveram a autoestima, insistiram até aqui e sabem perfeitamente o porquê do que fazem e do que não conseguem fazer em suas escolas e comunidades. Se depender de mim, por exemplo, esse "osso" não será enterrado, porque acredito em tempos melhores, e repito: sou animador cultural. Nasci para ser animador cultural, e sonhava com isso desde menino, quando nem existia animador cultural. Até entendo a razão da vergonha que alguns colegas têm de se anunciar com tais, mas em minha opinião, o governo do estado é que tem de sentir vergonha dessa vergonha que ele causa.

CARÊNCIA DE VOCÊ Demétrio Sena, Magé - RJ. Estava carente. Muito carente de carinho. Não de qualquer carinho, mas do seu. Queria muito voltar a ser alvo desses olhos e atrair seus cuidados mais intensos; mais extensos; mais descuidados. Desfrutar de seu colo e cafuné. Sua voz m…
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CARÊNCIA DE VOCÊ Demétrio Sena, Magé - RJ. Estava carente. Muito carente de carinho. Não de qualquer carinho, mas do seu. Queria muito voltar a ser alvo desses olhos e atrair seus cuidados mais intensos; mais extensos; mais descuidados. Desfrutar de seu colo e cafuné. Sua voz miúda, emocionada, e seu silêncio capaz de me dizer o que mais quero escutar. Só queria mesmo aquilo. Só aquilo tudo. Sentir que o tempo não apagou nosso afeto inexplicável. Não esmaeceu a intensidade; a força mágica do que nos faz tão próximos, ainda que distantes. Precisava muito pedir um tempo à distância física, para tê-la de novo mais que perto; mais que presente; pretérito mais que perfeito. Por isso fiz armadilha. Não pra você cair, mas entrar lentamente. Conscientemente. Sem nenhum risco de se ferir; se culpar; macular seus princípios. Violar conceitos e produzir entulhos; cargas; pesos futuros. Não posso nem quero causar isso, em nome da magia que nos faz tão nossos; tão livremente nossos. Estava carente de você. De tudo isso que você traz, quando se traz até meu mundo. Quando filtra o tempo; a distância; vence a vida e seus afazeres. Queria muito essas horas de querer que o tempo morra. E sonhava ensinar, como nunca fizera, os caminhos do meu corpo às suas mãos não de amiga, mas de fada, que é simplesmente, ou não tão simples assim... o que você é pra mim.

PESSOALIZAÇÃO Demétrio Sena, Magé - RJ. Pode ser expansivo; não vai soar brega;
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PESSOALIZAÇÃO Demétrio Sena, Magé - RJ. Pode ser expansivo; não vai soar brega; seja um pouco mais gente; quiçá mais gentinha; menos tão, menos mega, talvez menos mais; saia um pouco da linha que traçou pra si... Dê um riso mais solto, sonoro, informal, solte um gesto mais brusco, menos inibido, faça bem à libido que mora em seu corpo, permitindo-a sem dano, perigo nem dolo... Quebre o gelo em redor do seu ar de montanha, desse tom de quem ganha os status e bônus de robô social; pessoa de alumínio... Exercite umas vezes, por menos que o faça, esse alguém mais de graça; menos alugado; menos gado de luxo; animal de salão...

SÓ TE AMAR Demétrio Sena, Magé - RJ. Se me deixo te amar, é amor que não gasta;
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SÓ TE AMAR Demétrio Sena, Magé - RJ. Se me deixo te amar, é amor que não gasta; não é vento, e por isso, não faz erosão; nem te amo igual sombra, fantasma que arrasta uma velha corrente a gemer pelo chão... Meu amor é sereno e mantém a razão, sabe como conter o que assusta ou afasta, põe a sua esperança na própria ilusão e depois fecha o zíper; guarda bem a pasta... Sendo assim, tenhas calma, baixes teu escudo, já entendo esse nada que responde a tudo com que sonho sozinho por anos e anos... Só me deixes te amar, não tirarei pedaço com olhar e silêncio; sem gesto nem passo; calo todas as perdas e bebo meus danos...

AS ÁRVORES Demétrio Sena, Magé- RJ. Ao ver que a mangueira de meu quintal, mesmo frondosa, verdejante, cheia de vida não dava mangas, meu amigo deu a sugestão infeliz:
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AS ÁRVORES Demétrio Sena, Magé- RJ. Ao ver que a mangueira de meu quintal, mesmo frondosa, verdejante, cheia de vida não dava mangas, meu amigo deu a sugestão infeliz: - Corte logo essa árvore, seu Demétrio; ela não presta; não dá frutos. Argumentei sobre a sombra refrescante, a beleza da fronde, o verde que a mangueira ostentava enchendo aquele quintal de vida, poesia e pássaros... mas nada. Meu amigo batia o pé; reforçava o seu argumento: árvore que não dá frutos deve ser cortada. Se dependesse dele, as florestas seriam devastadas, de modo a só ficarem de pé as poucas árvores que ofereçam frutos próprios para o consumo pelos humanos. Quanto aos animais, morreriam todos. Uns, porque não podem ser comidos; e outros, para serem comidos. - Não, amigo; não cortarei minha mangueira. Tenho muita estima por ela, e considero frutos sagrados, sua sombra e beleza. Visivelmente contrariado pelo insucesso de sua sugestão, meu amigo se foi, após uma despedida meio ranhenta. Considerando sua idade já um tanto avançada, e consequentemente a de sua companheira de muitos e muitos anos, confesso que às vezes me preocupa o que meu amigo possa pensar em fazer com ela, que já não lhe dá filhos... ou frutos...

MÓBILES Demétrio Sena, Magé - RJ. É tristonho romper uma velha empatia,
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MÓBILES Demétrio Sena, Magé - RJ. É tristonho romper uma velha empatia, desatar algum laço que nunca existiu, porque foi fantasia de pano abstrato; foi apenas um sonho sem razão de ser... Dei meus gritos em vão pra caverna sem fundo que jamais emitia recibos de voz, uma foz desaguou a esperança no abismo e perdi a visão do paraíso em ti... Pendurava meus móbiles no teu silêncio; só queria pensar que te ouvia dizer pra entrar e fazer o meu ninho em tu´alma... Mas os ventos varreram qualquer ilusão, pela vasta erosão enxerguei a distância dessa proximidade que nunca existiu...

PREFÁCIO DO QUE FAÇO Demétrio Sena, Magé - RJ. Às vezes me sinto incomodado ao escrever sobre temas como amor ao próximo, perdão, justiça, temperança... Reconheço imediatamente que, não tão depois, posso vir a contradizer tudo isso com uma prática desumana. Um não perdoar ou pe…
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PREFÁCIO DO QUE FAÇO Demétrio Sena, Magé - RJ. Às vezes me sinto incomodado ao escrever sobre temas como amor ao próximo, perdão, justiça, temperança... Reconheço imediatamente que, não tão depois, posso vir a contradizer tudo isso com uma prática desumana. Um não perdoar ou pedir perdão. Com a injustiça, o egoísmo e a indiferença que deprecio em prosa e verso. Peço ao leitor de minhas páginas, que não me abandone por causa das minhas eventuais contradições. Pode até parecer hipocrisia, mas não é. O fato é que ao escrever como quem o faz para o mundo, escrevo para mim próprio. Tento me transformar em alguém melhor, e ao mesmo tempo, contagiar mais alguém.

NÓS, OS LAÇOS E OS NÓS Demétrio Sena, Magé - RJ. Ao perceber que o carinho, a preocupação, a devoção e a presença incondicionais que você tem dedicado a uma pessoa começam a gerar desconforto, indagações oculares, e a ser recebidos como excessos, não se equivoque. Não retire os…
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NÓS, OS LAÇOS E OS NÓS Demétrio Sena, Magé - RJ. Ao perceber que o carinho, a preocupação, a devoção e a presença incondicionais que você tem dedicado a uma pessoa começam a gerar desconforto, indagações oculares, e a ser recebidos como excessos, não se equivoque. Não retire os excessos. Retire tudo. Relações freadas tendem a se tornar decrescentes, e as relações decrescentes agonizam... viram mortes lentas e silenciosas. Não vale a pena transportar o peso de um moribundo que, se dependesse do seu afeto, viveria plenamente até que a morte física impusesse o fim a uma trajetória que teria valido a pena. Jamais implore recíprocas. Não peça esmolas de amores nem de amizades. De cumplicidade ou de confiança. Se uma das pontas de uma relação se torna esquiva, monossilábica e, principalmente, armada, quanto mais cedo a outra se render ao basta, menor será o sofrimento e mais breve a cicatrização. Aprenda, você também, a não causar frustrações: se é para fazer esfriar, distanciar ou inibir depois, nunca deixe aquecer, estreitar nem criar empatia. Não cative, para não ser responsável. Você pode ser forte, marmóreo, blindado, inoxidável, mas muitos não são assim.

PROIBIDOS Demétrio Sena, Magé - RJ. Temos algo em segredo, espremido por nós,
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PROIBIDOS Demétrio Sena, Magé - RJ. Temos algo em segredo, espremido por nós, uma voz que se tranca nas cordas vocais, um querer que não quer, mas não sabe calar o silêncio estridente no luar dos olhos... Somos esta novela que não tem mais fim, porque não desnovela o desejo secreto, é um sim negativo que se perpetua no concreto abstrato a situar o caos... Sentimento que tem que não fazer sentido e não pode ser lido na vida viável, só nas folhas voláteis de nossa quimera... Mas a dor monta stand nos traços tristonhos que desbotam seus sonhos de seja o que for, seja lá como for, impossível pra nós...

ALEGRIA DE PROFESSOR Demétrio Sena, Magé - RJ. Meu querido ex-aluno; é com satisfação e grande orgulho que o reencontro e constato que você se formou um homem digno. De bem. Admiro grandemente sua desenvoltura e a simpatia no atendimento a tantas pessoas diferentes. De culturas…
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ALEGRIA DE PROFESSOR Demétrio Sena, Magé - RJ. Meu querido ex-aluno; é com satisfação e grande orgulho que o reencontro e constato que você se formou um homem digno. De bem. Admiro grandemente sua desenvoltura e a simpatia no atendimento a tantas pessoas diferentes. De culturas, condições econômicas diversas e temperamentos opostos. Venho sempre aqui, por se tratar de um espaço gastronômico democrático, ao alcance até mesmo de um simples professor como eu. Você deve ser novo nesta casa, pois é a primeira vez que me atende. A propósito, sabe quem vi um mês atrás? Marcele; a menina endiabrada e linda que adorava beijar os meninos da classe para provocar ciúmes em todos eles; lembra? Ela também está ótima; bem sucedida como você. Trabalha honestamente. Creio que se tornou comissária de bordo. Quem não encontro faz muitos anos é o Tião Azulão, aquele menino tímido que a turma toda zoava por causa do cacoete com os olhos, mas tive notícias suas que me deixaram feliz como estou agora: ele comprou um terreno de bom tamanho, na roça, depois de receber uma ótima indenização por processo movido contra uma empresa em que trabalhou. Nesse terreno, Tião arregaçou as mangas e fez uma bela plantação de coqueiros. Fornece cocos para vários quiosques em uma praia do Rio. Bem; agora preciso ir. Foi realmente um prazer encontrá-lo. É sempre ótimo ter boas notícias de meus ex-alunos. Saber que seguiram suas vidas com dignidade, não importa em que profissões. Com muito ou pouco estudo, muita gente se perde pela vida e julga ter sucesso, tão somente por ganhar muito dinheiro com o que faz, mesmo levando a sociedade ao caos. É o caso dos traficantes, agiotas, milicianos, sequestradores, políticos e similares. Ainda bem que vocês, ao invés disso, têm coragem para trabalhar.

RENÚNCIA Demétrio Sena, Magé - RJ. Essa tua expressão de que o poço está fundo
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RENÚNCIA Demétrio Sena, Magé - RJ. Essa tua expressão de que o poço está fundo e não queres a luz nem a volta pra margem, faz o mundo pesado pra tua preguiça de buscar os desníveis da felicidade... Deixo a minha intenção de viver um momento que valesse uma vida só por ser contigo, teço asas de vento e viajo pra longe desse abrigo soturno que te faz cativa... Em teus ares estreitos de quem não tem ar, teu olhar sem olhar pra nenhum horizonte não achei o que achava que tinhas de sobra... Tua luz foi cortada e já me rendo ao fato, não há gato que possa repor energia, porque dias e noites morreram pra ti...

SINAL DE ORGULHO Demétrio Sena, Magé - RJ. Gosto mais de você do que suponho;
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SINAL DE ORGULHO Demétrio Sena, Magé - RJ. Gosto mais de você do que suponho; mesmo fria, longínqua, envolta em sombra; nenhum sonho no espelho de seus olhos ou reflexo algum do meu olhar... Tenho mais do que afeto corriqueiro, apesar de saber que o seu sabor é amargo; seu cheiro é de vazio; não existe promessa nesse abismo... Qualquer dia consigo dar meu gelo ao seu clima propício para tanto; meu encanto precisa se quebrar... Já me canso até mesmo do sorriso desse aviso do fim de seus instantes; mas me falta saber gostar de mim...

A FUGA DAS PALAVRAS Demétrio Sena, Magé – RJ. Dizia tudo na lata. Não tinha medo e limite. Jamais temeu os efeitos insondáveis de suas palavras diretas; contundentes. Muitas vezes, profundamente ofensivas... e sempre assim. Na lata. Sem eufemismos, metáforas nem rodeios, doesse…
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A FUGA DAS PALAVRAS Demétrio Sena, Magé – RJ. Dizia tudo na lata. Não tinha medo e limite. Jamais temeu os efeitos insondáveis de suas palavras diretas; contundentes. Muitas vezes, profundamente ofensivas... e sempre assim. Na lata. Sem eufemismos, metáforas nem rodeios, doesse a quem doesse. No entanto, apesar de sua forma intempestiva de falar, ele tinha sempre um discurso mágico. Verdadeiro e profundo. Daqueles de fazer qualquer pessoa refletir e até mudar de postura. Era consistente no que dizia, não titubeava e jamais permitia que, fosse o que fosse, passasse em branco. Quando tinha notícias de que alguém enganara o cônjuge, abria o verbo; falava poucas; digo; muitas e boas. Ao saber que um pai batera no filho, que uma pessoa fora desonesta ou injusta com outra, ia lá. Golfava tudo. Como sempre, na lata. Sem medo, medida, meias palavras, contornos ou disfarces. Mesmo assim, sempre foi alguém querido. Muito querido e respeitado, pois era o que dizia; o que seus discursos mostravam. Vivia cada palavra que deixava fluir. Era um cidadão honesto, verdadeiro, fiel, bom pai, trabalhador, cumpridor de seus deveres. Não havia, naquele homem, qualquer indício de superficialidade ou hipocrisia. Mas um dia o caldo entornou. Ou as palavras entornaram. Cheio de compromissos a cumprir, e com muita pressa, o homem saiu sem ter feito com o mesmo zelo, o que sempre fazia depois de abrir o verbo sobre alguma postura inadequada: tampar hermeticamente uma grande lata, sem qualquer conteúdo notório nem palpável, que ele mantinha no sótão de sua bela e grande casa. Uma lata secreta, como era o lugar no qual nem mesmo sua esposa e os filhos entravam, e de cuja existência os parentes e amigos, então, nem sabiam. Muito menos da lata única. Sem nenhuma igual. Foi assim que o inusitado aconteceu. Com brechas expostas, a lata foi liberando, um a um, todos os discursos e desabafos do cidadão inconformado com as mazelas do mundo. Com as injustiças e os desmandos do ser humano. Suas palavras foram tomando as ruas, invadindo ouvidos, mentes e corações, e fazendo pensar... sentir... se arrepender. Foi um dia grandioso, em que as pessoas consultaram a consciência e, comovidas, tomaram a decisão de mudar para melhor. Deixar de fazer o mal, cometer qualquer ato que pudesse prejudicar o próximo, e, por conseguinte ou extensão, o distante. Já sabedor do seu descuido que resultou a fuga das manifestações de muitos anos, e, apavorado com o volume repentino, agressivo e tamanho de franquezas que, por sua culpa, tomaram o espaço daquela cidade, o bom homem voltou em casa, muito às pressas, e fugiu com a família. Não quis esperar pelas consequências do ocorrido que logo se tornaria histórico, não só ali, mas em todo o planeta. Desnecessária, sua fuga. As consequências não poderiam ser melhores. Caso ficasse, o seu único arrependimento seria o de não ter dito muito antes, não na lata, mas na cara de cada cidadão, todos aqueles discursos maravilhosos, capazes de mudar tantas vidas.

NO CÉU DO ME CONCEITO Demétrio Sena, Magé - RJ. Quando criança, tive grande admiração pelos adultos trabalhadores que eu conheci. Era fã do sorveteiro, por exemplo. Aquela roupa branquinha - pelo menos nas primeiras horas do dia -, que lhe dava enorme respeitabilidade, não era…
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NO CÉU DO ME CONCEITO Demétrio Sena, Magé - RJ. Quando criança, tive grande admiração pelos adultos trabalhadores que eu conheci. Era fã do sorveteiro, por exemplo. Aquela roupa branquinha - pelo menos nas primeiras horas do dia -, que lhe dava enorme respeitabilidade, não era simplesmente uniforme. Não para mim. Era uma espécie de farda. Também olhava com espanto e admiração, os operários metidos em seus macacões, rumo ao trabalho nas indústrias ou na construção civil. Nesse tempo, queria ser qualquer uma dessas figuras, quando crescesse: sorveteiro, amolador de ferramentas, operário, motorista ou "gringo". Gringo, para mim, era vendedor de roupas e outros itens ou bugigangas, por causa do senhor português que vendia de porta em porta, e assim o chamavam, naturalmente por sua nacionalidade. Se não desse para ser nada disso, tudo bem; eu me conformaria em ser arquiteto, médico, cientista, empresário, advogado, escritor, oficial do exército, músico e até professor. Acabei escritor e professor, o que mais tarde escolhi, não porque passei a desprezar as preferências da infância, mas porque descobri no meu íntimo essas vocações, que também dão pouco dinheiro, no meu caso, mas me causam muito prazer, além do enorme orgulho... o mesmo que teria, se fosse qualquer profissional bem resolvido, por amar a profissão e ter consciência de que o trabalho é motivo de orgulho. Nestes tempos em que a mídia só louva os ricos, famosos, poderosos e influentes, apontando-os como os únicos bem sucedidos, por causa dos grandes resultados materiais que ostentam, às vezes creio que permaneci criança. O mesmo menino que ambicionava profissões bem simples e rudimentares, reconhecendo nelas uma dignidade que hoje não vejo reconhecida nos olhos de quase ninguém. Às vezes, nem mesmo nos de quem as exerce, por ser influenciado negativamente pela visão corporativa dos meios de comunicação. Tenho, evidentemente, meus ícones culturais e artísticos. Amo a literatura e sou fã de alguns escritores. Aprecio artes plásticas, música, filmes, novelas, outras manifestações culturais, e isso me faz admirar quem as pratica. Também admiro cientistas, desportistas, arquitetos, advogados, empresários, médicos, conferencistas, porém não mais nem menos do que aqueles trabalhadores que sempre foram meus ídolos. Continuo tendo grande admiração pelo sorveteiro, o operário, o amolador de ferramentas, o motorista, o "gringo" e todos os outros cidadãos que, só por serem trabalhadores, honestos, e saberem viver dignamente com o que ganham, são bem sucedidos... e por essa virtude, são estrelas no céu do meu conceito.

TEMPO DE SER GENTE Demétrio Sena, Magé - RJ. Faz tempo que decidi não ser uma pessoa sem tempo. Não ao ponto extremo de silenciar ou responder com monossílabos à manifestação de um amigo feliz, preocupado, triste ou solidário que me aborda, pessoalmente ou por instrumento remot…
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TEMPO DE SER GENTE Demétrio Sena, Magé - RJ. Faz tempo que decidi não ser uma pessoa sem tempo. Não ao ponto extremo de silenciar ou responder com monossílabos à manifestação de um amigo feliz, preocupado, triste ou solidário que me aborda, pessoalmente ou por instrumento remoto. Especialmente quando esse amigo tem consciência - e demonstra - de que provavelmente o meu tempo é curto, ainda que não seja. Mesmo com tantos afazeres, tenho tempo de não ser esquivo; de querer saber do que se trata; de não expor meu clássico e delicado "chega pra lá" em quem faço pensar que me é querido. Hoje quero manter quem me quer bem; quem me admira sinceramente e faz questão de uma palavra, um olhar... uma breve atenção - sem tensão -, porque isso é algo raro nos dias de hoje. Tenho tempo de não julgar que um amigo é um chato; que um admirador não tem noção; que a demonstração de alegria de quem me aborda é algo incômodo a depender da hora, circunstância ou lugar. Desde que passei a ter tempo e medir a importância dessas pessoas em minha vida, me tornei feliz... como julgava ser, no meu falso trono de pessoa sem tempo para ser pessoa.

SEM SENTIDO Demétrio Sena, Magé - RJ. Tua sombra me afasta e dissipa vontades
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SEM SENTIDO Demétrio Sena, Magé - RJ. Tua sombra me afasta e dissipa vontades que vieram comigo no arreio dos anos; cavalguei por verdades que vivi sozinho nos meus planos perdidos; fantasias gastas... Teu silêncio amordaça o sentido insistente, faz deixar de fazer no que sinto por ti, põe a tua corrente nas asas do sonho solitário e perdido entre os elos do espaço... Rasgo todos os panos do que revestia os desvãos deste afeto sem o teu olhar, a nudez dos meus dias nesta solidão... Pouco a pouco te apagas, te fazes comum, perdes todo este zum com que sempre te vi como deusa indelével de minha carência...

BLOQUEIO NO FACE Demétrio Sena, Magé - RJ. Resolvi não te achar ao abrir as janelas
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BLOQUEIO NO FACE Demétrio Sena, Magé - RJ. Resolvi não te achar ao abrir as janelas da janela pro mundo e pros teus desempenhos, teus engenhos e gritos de guerra constante contra tudo que possa existir a favor... Minha paz de quem sou não combina com isso, porque meu compromisso é de passos pra frente, meu olhar sobre o mundo é de alguma esperança e me cansa esse pé que não sai do passado... Deletei o teu ódio de risos e flores, tua mágoa de amores e tudo que brilha e teu vício de sombras; de ranger de dentes... Decidi que não vivo pra morrer de medo de mostrar este medo que tenho do escuro; quero ter um futuro sem sangue nos olhos...