CRIANÇAS IMPRÓPRIAS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Só entendo as mudanças progressivas;
cujas rotas não têm retrovisor;
sei que a flor nunca mais será botão
e que o tempo não faz percurso inverso...
A saudade só tem que ser saudade
ou estante honorária das lembranças;
nossa idade não dança o nosso tango
nem o aço do espelho exibe as almas...
Mas conheço quem vá na contramão
do seu tempo, seu vão, seu horizonte;
cai do vento e se arrasta contra si...
Não entendo pessoas decrescentes;
velhas mentes atadas aos umbigos
de crianças que há muito já não são.
PRECE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenha fé em gente;
nessa boa semente
que brota e cresce...
que semeia-se agora;
desfruta-se além...
Não apresse a prece,
a ação nem a hora
para hoje; amém.
DESILUSÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um dia ele percebeu que de ambos, era só ele quem propunha. Fora sempre assim. Nenhuma proposta era "de lá pra cá". Só de "cá pra lá". Nunca teve uma chance de responder. Dizer sim ou sim, como sempre seria, mas dizer. Ser solicitado por ela. Ficar envaidecido pela procura. Ter sua vez de ser cortejado.
Foi assim que outro dia resolveu trocar de margem. Remanejar os extremos. Ficar em silêncio e ver no que dava. Tinha esperança de que o silêncio faria "vir de lá" o que sempre "foi de cá". Jurava em seu íntimo que aquilo não era uma disputa, mas achava que ele mesmo nunca dera uma chance de ser o alvo; a caça. Era sempre o caçador.
O tempo se foi. Ele foi se deixando. Sua espera ganhou brio, quando percebeu que nunca "veio de lá" qualquer convite. Nenhuma proposta; solicitação. Ela não o amava; correspondia ao seu amor. Não o queria. Cedia generosamente ao seu querer. Até então, estava sempre ali. Provisoriamente ao seu alcance.
No fim das contas, ele não a tinha. Era tão somente contemplado pela preguiça do seu não... pela esmola do seu sim.
POEMINHA SAZONAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se julho é breve,
parece eterno...
mas logo dorme
sob as lembranças
do próprio inverno...
A primavera,
se bem me lembro,
só mostra o rosto
bem agosto
de setembro.
O QUE NADA MUDA
Demétrio Sena, Magé -RJ.
Não há Camões nem Platão;
nem Freire; Sócrates; Freud;
divindade, androide, pessoa;
o próprio Fernando em Pessoa...
Descarto mesmo Descartes,
Demócrito, Madre Tereza,
qualquer certeza pensada
em letras, artes e credos...
Salomão São Chico, Neruda,
Kardec, Pitágoras, Buda,
nem Gandhi; Maria; Jesus...
Ninguém relaxa verdades,
tem drogas contra saudade
ou habeas corpus pra cruz...
AMOR E SOCIEDADE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
É assim que te quero; como quem não quer;
numa reza sem fé; busca sem desempenho;
no silêncio da voz que transfiro pros olhos,
mesmo assim de fumê; de regato e não foz...
Eu te quero com filtros de não te perder,
muitos véus e desvelos ao ficar assim,
sem começo nem fim; meio termo eficaz
em não ter que acordar deste meu não dormir...
Um querer sem querer, mas por querer e pronto,
esse ponto sem nó pra poder desatar
quando a vida entender de cobrar transparência...
Não importa o contexto, é querer de verdade,
mesmo tendo a mentira como seu escudo,
para tudo ficar na moldura da lei...
AMOR E SOCIEDADE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
É assim que te quero; como quem não quer;
numa reza sem fé; busca sem desempenho;
no silêncio da voz que transfiro pros olhos,
mesmo assim de fumê; de regato e não foz...
Eu te quero com filtros de não te perder,
muitos véus e desvelos ao ficar assim,
sem começo nem fim; meio termo eficaz
em não ter que acordar deste meu não dormir...
Um querer sem querer, mas por querer e pronto,
esse ponto sem nó pra poder desatar
quando a vida entender de cobrar transparência...
Não importa o contexto, é querer de verdade,
mesmo tendo a mentira como seu escudo,
para tudo ficar na moldura da lei...
SONETO SOCRÁTICO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se morri toda morte que se morre,
já vivi cada vida que se tem,
ou de cada bebida o justo porre;
todo mal, se por mal ou se por bem...
Fui além do infinito, após além,
por amor fui mocinho em Love Story,
odiei, fiz a guerra, paz também,
mas ninguém me condene ou condecore...
Sou quem sou desde o dia em que cheguei,
sei de tudo, no entanto nada sei,
quanto mais me procuro e me aprofundo...
Ser poeta me abona pra voar
ou pra ir pelos ares lá no ar,
onde o céu justifica estar no mundo...
AMOR SEM ECO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um gostar dissolvido em névoa e véu;
disfarçado no céu de minha voz;
uma chama escondida que não chama
e me leva pra cama só comigo...
Meu amor se declara pra si mesmo,
minhas mãos te procuram nos meus cantos,
onde os mantos de minha solidão
chocam sonhos que nunca darão crias...
Tenho via de fato sem saída,
servidão que não serve um horizonte,
velha ponte quebrada noutro extremo...
É assim que meu mundo anseia o teu;
céu de ateu que não crê, só por despeito;
eu te odeio de amor ignorado.
NATAL SECRETO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Anos e anos de procura, e não encontrei a versão do meu natal no meio das cores fartas e sintéticas que saturam as ruas da cidade. Nem mesmo nas cartas de crédito e consumo que chegam à caixa de correspondências de minha casa e me chamam pras lojas enfeitadas por itens e gentes. Ou só por itens, porque afinal, pessoas também são itens no brilho superficial dos shoppings que se enchem de afetos para todos os gostos e poderes aquisitivos.
O natal com que sonho desde criança, e que não casava com os sonhos de outras crianças, nunca veio ao meu encontro. Talvez porque não exista, e porque os sonhos de meninos e adultos alienígenas não podem mesmo se realizar, para que o mundo não seja desarrumado. Jamais me achei, nem ao meu natal disforme, sob as ondas da paz comercial desse amor que se apresenta nos moldes emergenciais da velha data instituída.
Com o tempo, precisei adequar meu egoísmo à normalidade cívica e dogmática do natal que polui os olhos e dentro em pouco poluirá lixeiras, esquinas, encruzilhadas e guetos. Quando a minha esquisitice lamber os restos de abraços, discursos e sorrisos, meus olhos verão pessoas ainda mais esquisitas e carentes revirarem o lixo em busca dos restos gastronômicos do natal. Para essas pessoas, afetos de fim de ano são presentes de outro mundo.
DE VIVER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Não de fome ou doença; desprezo; abandono;
solidão nem desgosto; acidente; homicídio;
nem de raiva, paúra ou envenenamento;
por um mal de momento, arrastada saudade...
Pode ser por idade, mas feito quem pousa;
feito quem fecha os olhos ao abrir as asas
ou brotar pra dizer que chegou e já vai,
como a pétala cai; bem feliz; pois foi flor...
Ninguém morra de amor, num campo de batalha,
pelas horas sangradas no trabalho escravo
e por falha da lei, uma bala perdida...
Não de causas que nunca serão descobertas,
de feridas abertas, overdose ou porre;
só há honra em quem morre de vida vivida...
PODRIDÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Era podre de rico...
de prestígio e de fama...
bens e cobre...
mas morreu e deu bicho,
tanto quanto quem morre
podre de pobre...
TRAIÇÃO FIEL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Dê seu jeito e se arranje a qualquer preço,
no consolo evasivo desses braços,
nos espaços vazios que deixei
pra que alguém se aventure a preencher...
Improvise a paixão, simule amor,
um calor de artifício, alguns ruídos,
feche os olhos e finja que me vê
na tevê da saudade aí no fundo...
Ponha salsa e pimenta nos momentos,
como quem condimenta pão e água,
faz a mágoa vestir-se de prazer...
Só não diga o meu nome, se apiede,
pois lhe pede a resposta merecida
uma vida plantada em sua mão...
RENASCENÇA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quando tudo pesava nos ombros cansados,
veio a luz emergente; a reflor no sertão;
de repente o passado se uniu aos passados,
revestiu minhas vistas de nova visão...
Era como nascer numa outra versão,
pra voar outra vez, montar sonhos alados,
mesmo assim ter os pés na firmeza do chão
e poder desatar os meus passos guardados...
Tanto não pra que o tempo me dissesse sim,
me salvasse do poço quando já bem fundo;
retirasse da alma os espinhos de abrolhos...
Quando a vida lhe deu de presente pra mim,
descobri a magia da vida e do mundo;
foi o fim do meu fim; renasci nos teus olhos...
ENGANA-ME
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem quiser mentir pra mim,
terá que ser convincente;
mentir como quem não mente;
brincar de autenticidade...
porque terá que mentir
de nem notar ou sentir...
saber brincar de verdade.