(O SEU AMOR)
O pai da mentira te aplaude
Teu amor não passa de uma fraude
Isso me machuca, mas em seu dedo não colocarei um anel
Pois acreditar no seu amor é como acreditar em papai Noel.
(PERFUME)
A um passo do penhasco
Levei seu perfume em um frasco
Se um dia você me largar
Os anjos virão me buscar
Pois lá
É mais fácil de suportar
A falta que faz
Não ter seu perfume para acalmar.
(TODO MUNDO CHORA)
O sorriso vou adiar
Hoje é permitido pôr os olhos para lacrimejar
Hoje é tolerado
Serei um palhaço triste e não engraçado
Hoje o sofrimento é querido
E desse pecado serei absolvido
Hoje não vou para a guilhotina
Hoje a minha dor não fica atrás da cortina
Foi escolhida, não precisa de eleição
A tristeza tomará a posição
É que hoje preciso descarregar
As dores do passado que há muito tempo estão a me sufocar.
(A MORTE)
Vingativa como Hera,
Que acendam uma vela.
Monarca ou plebeu,
Ela visitará e não importa se você é saudável ou adoeceu.
Ela faz o que der na telha.
Para ninguém se ajoelha.
A uma deusa se assemelha.
Visita bandido e artista,
Milionário e modelo capa de revista.
Ela também vai te dar um oi,
Pois não importa quem você é ou quem você foi.
(UM COMEDIANTE)
Para sua curiosidade sanar,
Venha até mim e diga olá.
É que eu não passo de um comediante
Que faz da própria tristeza uma piada hilariante.
Sinto falta do isolamento,
Mas ele causa sufocamento,
Então faço piadas para que tudo seja suportável
E é um fato inegável,
Que o meu esforço para continuar sorrindo, é admirável.
O povo precisa levantar a voz,
Lutar como um leão feroz,
Pois nada aqui é bom ou suficiente.
Queremos um país decente.
Político honesto é conto de fadas.
Inúmeras nações são enganadas.
É necessário espernear e armar um barraco,
Pois esses desgraçados já encheram o nosso saco.
Não deixe que sua liberdade seja roubada,
Meu camarada.
A liberdade é seu bem mais precioso,
Ela é a virtude do vitorioso.
Muitos podem desacreditar,
Apesar disso nunca pense em se curvar.
Escute o meu sermão
E se alguém te rejeita, jamais implore por atenção.
As minhas palavras são dinamites.
Hoje te ataco para ficarmos quites.
Hoje te convido para o combate
E não aceitarei derrota ou empate.
Hoje o oprimido derrota o opressor.
Hoje quem foi agredido será o agressor,
Pois quem foi chamado de fraco se enfureceu.
Hoje derrubarei as estátuas dos reis que um dia o homem enalteceu.
Mais mentiras
Prometeu o mundo dos sonhos em sua campanha
E escondeu que em pouco tempo estaríamos na teia da aranha.
Tudo bem, já era esperado,
Já que depois de tantas mentiras sei detectar um mentiroso SAFADO.
ESCRAVO DO AMOR
Anda logo, me solta
Lá vem outra reviravolta
Preciso ter cautela
Minha vida é uma dramática novela.
Uma bagunça, uma zorra
Me sinto trancado numa masmorra
Eu que sou filho legítimo da anarquia
Ser escravo nunca aceitaria.
Não sou Romeu
Mas muita lágrima escorre e já escorreu
Pois ninguém conhece o amor como eu
Se em ti ele não arde, ele já ardeu.
(O primeiro poema)
Nascido com a raiva
Criado pela ira
Envolvido com o ódio
Então assim
Fui construído pela dor
Sim, é ele
Aquele que não teme
Mas medo não tem?
Tens medo de perder o nada?
Olá, exílio
Em ti procuro auxílio
Estou de malas prontas
Como sempre, segurando as pontas
Me mostre culturas, monumentos, países
E que se dane as minhas nostálgicas raízes.
Foi desperdício
A vida é um hospício
A minha dor é alimento
Para esse mundo tão nojento.
É refeição de primeira
Para o mundo que me botou uma coleira
Sou apenas um animal de estimação
Implorando para fazer outra refeição.
Andando em círculo
Fazendo da tristeza o meu veículo
Respirando com esforço
Visto que nesse chão, eu só me contorço.
(EXECUTOR)
O Sol vai se pôr
Mas a culpa estará nos ombros do executor
Pois a notícia é fresca
E a morte vive na lâmina da figura vilanesca.
A arma dos reis infernais
Dada a um homem que há muito tempo perdeu os seus ideais
Agora vive possuído pelo dever de ser o carrasco
Não sentindo a dor alheia para não ser um fiasco
Tornando-se um homem que Deus jamais abençoaria
Escondendo sua dor em prol da vilania.
A queda do usurpador
Já quis que me chamassem de rei, mas temo ser amante da tirania
Temo ter o antagonismo impregnado em minha biologia
Pois sou culpado de viver em meio a explosões
Assim como a pólvora e o disparo dos canhões.
Nessa trama sou a principal figura antagônica
E a minha queda será cômica
Lembrarão de mim com ódio e não com amor
Vão cuspir em meu túmulo e me chamarão de usurpador.
Arrogante, fui tão pequeno como o menor inseto
E meu espírito sempre foi orgulhoso e inquieto
Somente a solidão, essa deve ser a minha punição
Pois é uma sentença justa para alguém que viveu como vilão.
A garota da roupa branca
Fizeste um truque para confundir
E eu, em suas artimanhas, só fiz cair
Caí numa armadilha mirabolante
Mascarada com seu olhar misterioso e penetrante.
Você é o mal, você é o bem
É o diabo que só faz o que lhe convém
E o que lhe trás excitação
É ver meus olhos melancólicos como o de Tristão.
Enquanto a tristeza me molda
Pergunto se tu és a minha Isolda
Mas para o lamento desse marmanjo
Não consigo decidir se tu és o demônio ou um anjo.
De vez em quando
É um efeito colateral
A morte salivando como se eu fosse seu prato principal
As sombras chamam meu nome
Meu outro lado está com fome.
Mentiu quem disse que ele havia morrido
Meu lado poético só estava adormecido
Às vezes deixo ele passear
Um minuto longe do cárcere para respirar.
Logo ele dormirá
Mas antes, no papel, ele rabiscará
Irá descrever todas as confusões dentro do meu ser
Vai ser assim até o dia que cada célula do meu corpo apodrecer.
A lucidez do louco
Meu amor, isso magoa
Ser eu e ser outra pessoa
Já escrevi coisa parecida
Então liberto a minha loucura escondida.
Quando a coisa aperta só quero ir embora
Para ver se tudo melhora
Às vezes só quero pegar as malas e fugir
E essa covardia toda me faz rir.
Toda essa confusão é lucro
Nunca me chame de são, me chame de maluco
Querem me enforcar
Pois o louco que reconhece a sua loucura é demais para decifrar.
Há muito tempo, em minha ignorância, eu disse algo sobre como as pessoas se prendem a religião para evitar a simplicidade e a monotonia da vida. Estava enganado. A vida jamais será simples.
A realidade é que as pessoas se prendem a religião, pois precisam das respostas para as suas incontáveis perguntas.
Notável desfecho
Hoje, nostálgico, me sinto
Me seguro na cadeira e aperto o cinto
Desligo luzes, fecho portas e janelas
Pois vai ser uma noite daquelas.
Se relembrar é viver
Por que sinto cada célula do meu corpo desaparecer?
Sou como uma bomba preparando-se para a explosão
Que entende ser um verso violento nessa barulhenta canção.
A completa ausência de entendimento
Sobre quem realmente sou por dentro
Me transforma em um ser sádico
Que anseia loucamente por um desfecho trágico.