Nunca perder o controle.
Grande ênfase deve pôr a prudência em não perder o controle. Assim se portam os grandes homens, pois a magnitude dificilmente se abala. As paixões são os humores da alma, e qualquer excesso indispõe a prudência. Se a moléstia sai pela boca, sua reputação estará em perigo. Tendo completo domínio de si próprio na prosperidade como na adversidade, ninguém irá censurá-lo, mas admirá-lo.
Falar com prudência.
Cautelosamente com os rivais e decentemente com todos os demais. Sempre há tempo para proferir uma palavra, mas não para fazê-lo voltar. Fale como se redigisse seu testamento: quanto menos palavras, menos processos judiciais. Treine em coisas pouco importante para saber das mais importantes. A arcanidade tem um ar de divindade: aquele que fala levianamente está muito
perto de ser vencido e convencido.
Tratar o fácil como se fosse difícil, e o difícil como se fosse fácil. De modo a não ficar confiante no primeiro nem desencorajado demais no segundo. Para que algo não se realize, basta considerá-lo feito. Mas o esforço vence a impossibilidade. Em momentos de grande perigo, nem sequer pense, simplesmente aja. Não empreste importância às dificuldades, para que não o
intimidem.
Ter bons repentes.
Eles nascem de uma feliz presença de espírito; graças à sua vivacidade, não há apuros, nem acasos incômodos. Alguns pensam muito e fazem tudo errado,
enquanto outros fazem tudo certo sem antes ter pensado. Alguns têm reservas de antiperístase? As dificuldades revelam melhor deles. Trata-se de monstros que prosperam com a improvisação e erram sempre que pensam em algo. O que não lhes ocorre de imediato jamais lhe ocorrerá, e de nada adianta pensar depois. A rapidez arranca aplausos, pois revela uma capacidade prodigiosa: argúcia no pensamento, prudência nos atos.
Ninguém consegue dominar-se se não compreende a si próprio. Existem espelhos para o rosto, mas não para o espírito, tome lugar do espelho a ponderada auto-reflexão. E, ao se esquecer de sua imagem exterior, tente corrigir e aprimorar a interior. Conheça a força da sua prudência e perspicácia. Verifique se tem condições de se empenhar. Explore seu íntimo e verifique seus recursos para tudo.
Saber conversar
É o que revela ser uma pessoa verdadeira. Nenhuma atividade humana exige mais atenção por ser a mais comum. É aqui que ganhamos ou perdemos.
Requer siso escrever uma carta, que é a conversa refletida e escrita, e ainda
mais conversar, pois a discrição é logo posta à prova. Os entendidos tomam pulso da alma baseados na linguagem, e baseado nisso um sábio disse: “Fale, e será conhecido”. Para alguns, a arte da conversação está em falar sem arte, deixando-a cair livremente, como a roupa. A idéia talvez seja válida quanto à conversa entre amigos. Mas, nos círculos mais elevados, a conversação deve ser mais formal, revelando a excelente substância da pessoa. Para que a conversa seja bem aceita, tem de se adaptar ao caráter e inteligência dos interlocutores. Não banque o censor de palavras- pois será tomado como um pedante gramático-, e muito menos o fiscal das opiniões- o que fará que seja evitado pelos demais, impedindo-o de se comunicar. Na conversa, a discrição é mais importante que a eloqüência.
Associar-se àqueles com quem pode aprender
Seja o convívio amigável uma escola de erudição e torne a conversação instrutiva. Faça dos amigos professores e combine a utilidade da aprendizagem com o gosto da conversa. Alterne a fruição com a instrução. O que você diz será recompensado com aplausos; o que ouve, com aprendizados. O que nos leva aos outros, em geral, é a nossa própria conveniência; aqui ela tem um sentido maior. Os prudentes freqüentam as casas de renomados heróis que são mais palcos de heroísmo que palácios de futilidade. Alguns são notáveis pelos conhecimentos e bom senso; pelo exemplo e pelo modo de agir, são
oráculos de toda grandeza. Aqueles que os cercam formam uma academia refinada de discrição e sabedoria elegantes.
A virtude é uma cadeia de todas as perfeições, o centro de toda a felicidade. Torna-o prudente, discreto, perspicaz, sensível, sensato, corajoso, cauteloso,
honesto, feliz, louvável, verdadeiro... um herói universal. Ter esses nos tornam bem aventurados: sábio, sadio, e santo. A virtude é o sol do mundo, e seu hemisfério é uma boa consciência. É tão encantadora que ganha a graça de Deus e dos homens. Não há nada tão amável quanto a virtude, nem tão detestável quanto o vício. A virtude só é autêntica; tudo o mais é imitação. Capacidade e grandeza se medem pela virtude, não pela sorte. Só a virtude basta a si mesma. Faz-nos amar os vivos e lembrar os mortos.
Não se tornar íntimo demais dos outros.
Nem permitir que se tornem de você. Perderá a superioridade que tinha por ser inatingível, e com ela a estima. Os astros não roçam em nós, e conservam o
esplendor. A divindade impõe decoro, e a familiaridade facilita o desrespeito. As coisas humanas, quanto mais temos, são menos valorizadas, pois a comunicação revela os defeitos que a reserva ocultara. Não convém muita intimidade com quem quer que seja; nem dos superiores, pois é perigoso; nem dos inferiores, pois é indigno; e muito menos da vilania, que é tola e insolente. Não percebe que lhe fazemos um favor, pensa que se trata de nossa obrigação. Familiaridade rima com vulgaridade.
O homem nasce bárbaro. Redime-se da condição de besta cultivando-se. A cultura nos transforma em pessoas; e tanto mais, quanto maior for a cultura. Por isso, a Grécia pôde chamar o resto do mundo de bárbaro. A ignorância é rude e
grosseira. E até a sabedoria é áspera quando carece de polimento. Não é apenas a inteligência que devemos apurar, mas também nossos desejos e principalmente nossa conversa. Alguns exibem um esmero natural tanto nas qualidades interiores quanto nas exteriores, tanto nos conceitos quanto nas palavras, tanto no adorno corporal (que é como a casca) quanto nos dons espirituais (o fruto). Já outros são tão brutos que embaçam tudo, até suas qualidades superiores, com um intolerável desasseio bárbaro.
O pacato tem vida longa.
Para viver, deixe viver. As pessoas pacíficas não vivem apenas, reinam. Ouça e veja, mas mantenha-se calado. Um dia sem tensões significa uma noite repousante. Viver muito e com gosto é viver duplamente: é fruto da paz. Tem tudo aquele que não se preocupa com aquilo que não importa. Não há bobagem maior do que levar tudo muito à sério. Manter-se aberto àquilo que não interessa é tão tolo quanto não se envolver com aquilo que interessa.
Saiba qual é seu principal defeito.
Ninguém vive sem ter um contrapeso da sua melhor qualidade, e se a inclinação o favorece, subjuga a pessoa como um tirano. Comece a combatê-lo prestando-lhe atenção, identificando-o. Dê, para esse defeito, a mesma atenção que lhe é dada por quem o observa. Para ser senhor de si, deve refletir sobre si mesmo. Vencida essa imperfeição, que é a maior de todas, as outras se
acabarão.
Elogiar
Não é sensato usar superlativos. Ofendem a verdade e desabonam seu discernimento. Ao exagerar, desperdiçamos nossos elogios e mostramos
limitação de conhecimento e gosto. O louvor desperta a curiosidade, atiça o desejo e, mais tarde, quando se percebe que os bens foram superestimados, como acontece muitas vezes, a esperança traída vinga-se menosprezado o elogiado e aquele que elogiou. Os cautos têm comedimento, preferindo pecar pouco a muito. Raras são as eminências, portanto tempere sua apreciação. A ênfase é uma forma de mentir. Pode arruinar nossa reputação de bom gosto e, ainda pior, de sabedoria.