Nas esquinas das ruas
e das nossas memórias,
fazia sol o chuva,
O sorriso era gratuito
até quando íamos buscar
o prêmio escrito no palito.
Sempre debaixo do guarda-sol
para carrinho de picolé,
vendendo sorvetes ou balas,
Era ponto de orientação
para voltar para casa:
tudo muda, o tempo passa...
Vendo gerações crescer
ou até mesmo se casar,
Nunca mais vi nenhum
por onde tive de passar,
O sorveteiro virou história
para muita gente lembrar.
Nas auroras sob a tua porção
do Hemisfério Norte,
onde tens porto seguro,
Prometo de ler como quiser,
e basta somente dizer.
quando e do jeito que quer.
Exatamente como o florescer
da Chuva-de-prata
que não pede sequer licença,
ainda sem definitiva sentença.
O que será ou não será,
somente o futuro irá dizer;
Não tenho nenhuma
pressa de como irá ser;
Porque eu sei o que sou
capaz de contigo fazer.
Não há nada que desvie
o que é para ser,
As oscilações são sinais
de que o amor está a envolver.
Não temer nenhum risco,
num lugar secreto
de ser o universo,
e com os dois pés na terra,
com o peito aberto.
Assumir de tudo
um pouco, sem reserva,
e entre dois mundos —
selar a convergência
com lábios mudos.
De um pacto semeado
sem nenhum pleonasmo,
arcando ser de um
jardim oriental:
todas as frutas
mais doces e macias
para alimentar,
com delícias infindas,
a sua liberdade
de tão linda ave.
Não existe nenhuma
distância segura de mim;
pertenço ao coração,
à alma e ao pensamento.
No outono catarinense,
sou a flor persistente
do maracujá-silvestre
descoberta em maio.
Do sagrado ao abrir
e fechar dos teus olhos,
a insurgente favorita
e inabalável enigma.
Cada nova defesa vira
um brinquedo novo;
não me desmotiva
e alimenta a adrenalina.
Não nego que não exista
a emergência de amor,
embora a sedução convide
para o que não é só fantasia.
Com os olhos e o coração
voltados para Deus
e o Hemisfério Celestial Sul,
Sempre recebo borboletas
como as melhores companhias,
A minha voz empresto sempre
a quem precisa nesta vida.
Livros, papel, caneta e poesia,
forte ligação com a Natureza
e com a minha Pátria nativa,
A influência indígena sempre
mantenho viva desde pequenina:
Assim fui, sou e sempre serei,
mantenho inquebrável esta grei.
Desta novela não há
nenhuma novidade.
Nos seus capítulos
só resta crueldade.
Não tem nada a ver
com teoria conspiratória:
a poesia também serve
à memória histórica.
Matam e sequestram
a solidariedade de uns
no vasto mar da Humanidade.
Amanhã voltam os tempos
em que muitos foram
sequestrados dos berços.
Sem nenhum arre(medo),
isto é só o começo
do que nunca deveria
outrora ter iniciado
e que agora, diante dos olhos
e debaixo dos narizes,
está sendo requentado.
O Mangue-vermelho
Simplesmente ser como um Guará
sob a proteção do Mangue-vermelho,
da vida não ter nenhum medo,
Viver não pede receita de bolo ou segredo;
No Mangue-vermelho se proteger,
nutrir e com confiança viver;
e adiante, no curso, com coragem seguir.
Se permitir ser couro a ser curtido
e pintado pelo Mangue-vermelho,
Não ter nenhum vínculo passado,
orgulhar de ter as raízes expostas,
deixarque a ciência encontre a cura
e não se fazer em tudo --- absoluta.
Ser paciência pura com gente dura,
que não enxerga um palmo adiante do nariz,
como o Mangue-vermelho, ser refúgio feliz,
mesmo quando não for visto como merecido,
dizer com honra para sim: - Eu existo, e resisto.
Senhora de toda a poesia
Somos de muito longe,
mas não distantes,
Não importa o quanto
tempo demore,
Estamos do lado de dentro
no coração e no pensamento.
O quanto deverei
caminhar e quantos
degraus irei subir,
Não intimida
e nem desmotiva.
A minh'alma feminina
pela tua se encantou,
deseja ser cativa,
e senhora de toda a poesia.
Pouco a pouco, paulatinamente,
fui crescendo profundamente.
Encontrei-me por dentro contigo
de maneira surpreendente no destino.
Exatamente onde Ocidente e o Oriente,
se entrelaçam interminavelmente,
porque coincidem todos os motivos
que ainda sequer por nós foram ditos,
e mesmo sem dizer nenhuma palavra,
há mais de uma emoção celebrada.
Em mim encontraste intensidade,
feminilidade, mistério e imensidade;
Sobre nós dois o céu da Humanidade
e tudo o que não pode ser mudado.
Com cada uma das minhas nuances
capturei e finquei profundas raízes
como as de um conhecido cipreste milenar
que enfeita, sombreia e perfuma o seu ar;
Ainda cedo celebro o fascínio, o encontro,
a glória do amor, a vitória e a verdade.
No céu de Rodeio
um pouco de cor
de uma aurora de maio
eleva a poesia e o humor,
Sim, tenho amor
pelo Médio Vale do Itajaí,
criado por Deus
com todo o esplendor.
Permitir todas as chances
dos três tipos de mangues
no peito se enraizarem
com várias coragens
da liberdade conhecer,
crescer, procriar e revoar:
Não permitir que nada
venha a te dominar.
Criar brio e asas de guará,
mescladas com as auroras
matutina e vespertina
do Hemisfério Celestial Sul,
sem preocupação se há
alguma rima óbvia ou não:
Resgatar com todo o coração,
o deslumbramento e a poesia
sempre a cada nova estação.
Mangue-Branco
No sobrevoo do Guará,
entre a restinga e o manguezal,
desvela-se, serena e clara,
a certeza que não se desfaz:
O Mangue-Branco floresce
com branca e obstinada beleza,
com suas glândulas de sal
bebendo o amargo com a certeza
da cura em terra brasileira.
Aqui, no nosso chão,
segue imutável a ordem natural.
Muitos tentam rompê-la,
e sempre se darão muito mal.
É prova viva de que a vida
é mais forte que a morte.
Não é só questão de norte
nem mero capricho da sorte.
Nascemos libertados,
nossa raiz é forte;
e está para nascer a hoste,
para alcançar e tombar
todo o que contra a vida se levantar.
Mangue-Preto
Deixar que o Mangue-Preto
seja o pulmão do oceano
com as suas sul-americanas
absolutas glândulas de sal,
e se permitir um dia normal.
Ser um pouco Guará no ninho,
e confiar plenamente que a vida
cumpra o seu próprio destino,
mesmo que cause algum calafrio:
Para dizer para si: -- Estou vivo.
Mangue-botão
Algo em mim faz a transição,
o ponto onde o mar desiste,
Insistindo em ser a imensidão
tendo tudo a ver quando
a terra começa a vencer:
Do jeito exato do Mangue-botão
onde reinam cada um
dos três mangues que crescem,
abrigam e a vida nutrem.
Sem sequer tocar na lama,
os mangues roçam na contemplação
profunda d'alma humana
que possui asas guarás,
e se reserva do que não liberta.
[Sem deixar de lado o coração
enraizado na própria terra].
Minha imaginação
têm a plenitude,
a liberdade e revoada
nas asas de cada
Papagaio-charão,
em busca de Pinhão;
Algo parecido tenho
buscado na Araucária
do teu divino coração.
De Cabo Verde e São Tomé
nascido para comer,
Inhame divino Inhame,
a herança ancestral
só tenho a agradecer,
Se você ainda não provou,
comigo irá comer,
com o meu tempero bem
brasileiro e o bem querer.
Alma de Tuiuiú no ninho do mês de maio,
que da poesia ostenta --- o mais sagrado,
Onde o desabrochar das flores dos ipês-rosa
como preces recordam a promessa amorosa.
Promessa que foi cumprida e floriu no lugar
que foi enterrado o heroico guerreiro indígena;
Como prova de amor para a sua amada
além da vida que hoje enfeita a nossa vista.
Desta e de tantas recordações que a memória
resgata com particular lírica se finca a história,
para se envaidecer e honrar de cada glória.
Para que legados entre os dedos não escorram,
para de tudo o que importa por nada nem ninguém
tenha nenhum poder de fazer que a gente desista.
Maio floresce com os ipês
sob o Hemisfério Austral,
assumo a minha urgência
que também floresce igual.
De silêncio em silêncio,
o coração sentimental,
indomado e brejeiro:
é puro desejo total.
Venha sem demora,
porque florescer requer
companhia sem hora.
Maio abrirá a porta
secreta e estenderá
o paraíso e a sua aurora.
Como quem de cima
do seu próprio cavalo,
enxerga o chão sagrado
que o abriga e sustenta,
Vê tudo com clareza,
incluindo a vil vileza,
Com toda a sutileza,
espírito de galpão e tropa
e chimarrão na mão.
Não nego a herança filial
do vento pampeiro
que ninguém controla,
De Sul a Sul balança
o ipê-roxo-de-sete-folhas
em preparação,
em maio, para a sagração
da absoluta floração.
Das raízes ao coração,
fincadas as origens
com apego a este chão,
Carrego alma briosa
de Sepé Tiaraju, que não
permite que a História
sofra mais alteração.
A herança de qualquer povo
ninguém retira,
independente de quem ali guia,
porque, gostando ou não,
quem manda passa, e o povo fica.