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Frases de Álvares de Azevedo

47 frases

MEU SONHO EU Cavaleiro das armas escuras,
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MEU SONHO EU Cavaleiro das armas escuras, Onde vais pelas trevas impuras Com a espada sanguenta na mão? Por que brilham teus olhos ardentes E gemidos nos lábios frementes Vertem fogo do teu coração? Cavaleiro, quem és? — O remorso? Do corcel te debruças no dorso... E galopas do vale através... Oh! da estrada acordando as poeiras Não escutas gritar as caveiras E morder-te o fantasma nos pés? Onde vais pelas trevas impuras, Cavaleiro das armas escuras, Macilento qual morto na tumba?... Tu escutas... Na longa montanha Um tropel teu galope acompanha? E um clamor de vingança retumba? Cavaleiro, quem és? que mistério... Quem te força da morte no império Pela noite assombrada a vagar? O FANTASMA Sou o sonho de tua esperança, Tua febre que nunca descansa, O delírio que te há de matar!...

PÁLIDA INOCÊNCIA Por que, pálida inocência, Os olhos teus em dormência
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PÁLIDA INOCÊNCIA Por que, pálida inocência, Os olhos teus em dormência A medo lanças em mim? No aperto de minha mão Que sonho do coração Tremeu-te os seios assim? E tuas falas divinas Em que amor lânguida afinas Em que lânguido sonhar? E dormindo sem receio Por que geme no teu seio Ansioso suspirar? Inocência! quem dissera De tua azul primavera As tuas brisas de amor! Oh! quem teus lábios sentira E que trêmulo te abrira Dos sonhos a tua flor! Quem te dera a esperança De tua alma de criança, Que perfuma teu dormir! Quem dos sonhos te acordasse, Que num beijo t’embalasse Desmaiada no sentir! Quem te amasse! e um momento Respirando o teu alento Recendesse os lábios seus! Quem lera, divina e bela, Teu romance de donzela Cheio de amor e de Deus!

O POETA Un souvenir heureux est peut-être sur terre Plus vrai que le bonheur.
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O POETA Un souvenir heureux est peut-être sur terre Plus vrai que le bonheur. A. DE MUSSET Era uma noite: — eu dormia... E nos meus sonhos revia As ilusões que sonhei! E no meu lado senti... Meu Deus! por que não morri? Por que no sono acordei? No meu leito adormecida, Palpitante e abatida, A amante de meu amor, Os cabelos recendendo Nas minhas faces correndo, Como o luar numa flor! Senti-lhe o colo cheiroso Arquejando sequioso E nos lábios, que entreabria Lânguida respiração, Um sonho do coração Que suspirando morria! Não era um sonho mentido: Meu coração iludido O sentiu e não sonhou... E sentiu que se perdia Numa dor que não sabia... Nem ao menos a beijou! Soluçou o peito ardente, Sentiu que a alma demente Lhe desmaiava a tremer, Embriagou-se de enleio, No sono daquele seio Pensou que ele ia morrer! Que divino pensamento, Que vida num só momento Dentro do peito sentiu... Não sei!... Dorme no passado Meu pobre sonho doirado... Esperança que mentiu... Sabem as noites do céu E as luas brancas sem véu Os prantos que derramei! Contem do vale as florinhas Esse amor das noite minhas! Elas sim... que eu não direi! E se eu tremendo, senhora, Viesse pálido agora Lembrar-vos o sonho meu, Com a fronte descorada E com a voz sufocada Dizer-vos baixo: — Sou eu! Sou eu! que não esqueci A noite que não dormi, Que não foi uma ilusão! Sou eu que sinto morrer A esperança de viver... Que o sinto no coração! Riríeis das esperanças, Das minhas loucas lembranças, Que me desmaiam assim? Ou então, de noite, a medo Choraríeis em segredo Uma lágrima por mim!

Fui um douto em sonhar tantos amores... Que loucura, meu Deus! Em expandir-lhe aos pés, pobre insensato,
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Fui um douto em sonhar tantos amores... Que loucura, meu Deus! Em expandir-lhe aos pés, pobre insensato, Todos os sonhos meus! E ela, triste mulher, ela tão bela, Dos seus anos na flor, Por que havia de sagrar pelos meus sonhos Um suspiro de amor? Um beijo — um beijo só! eu não pedia Senão um beijo seu E nas horas do amor e do silêncio Juntá-la ao peito meu! Foi mais uma ilusão! de minha fronte Rosa que desbotou Uma estrela de vida e de futuro Que riu... e desmaiou! Meu triste coração, é tempo, dorme, Dorme no peito meu! Do último sonho despertei e n’alma Tudo! tudo morreu! Meus Deus! por que sonhei e assim por ela Perdi a noite ardente... Se devia acordar dessa esperança, E o sonho era demente?... Eu nada lhe pedi: ousei apenas Junto dela, à noitinha, Nos meus delírios apertar tremendo A sua mão na minha! Adeus, pobre mulher! no meu silêncio Sinto que morrerei... Se rias desse amor que te votava, Deus sabe se te amei! Se te amei! se minha alma só queria Pela tua viver, No silêncio do amor e da ventura Nos teus lábios morrer! Mas vota ao menos no lembrar saudoso Um ai ao sonhador... Deus sabe se te amei!... Não te maldigo, Maldigo o meu amor!... Mas não... inda uma vez... Não posso ainda Dizer o eterno adeus E a sangue frio renegar dos sonhos E blasfemar de Deus! Oh! Fala-me de amor!... — eu quero crer-te Um momento sequer... E esperar na ventura e nos amores, Num olhar de mulher! Só um olhar por compaixão te peço, Um olhar.... mas bem lânguido, bem terno...

Ah! vem, alma sombria que pranteias. Por quem choras? Por mim? Em vez de prantos
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Ah! vem, alma sombria que pranteias. Por quem choras? Por mim? Em vez de prantos Deixa-me suspirar a teus joelhos. Tu sim és pura. Os anjos da inocência Poderiam amar sobre teu seio. Aperta minha mão! Senta-te um pouco Bem unida a minha alma em meus joelhos, Assim parece que um abraço aperta Nossas almas que sofrem. Revivamos! O passado é um sonh, o mundo é largo, Fugiremos à pátria. Iremos longe Habitar num deserto. No meu peito Eu tenho amores para encher de encantos Uma alma de mulher Por que sorriste? Sou um louco. Maldita a folha negra Em que Deus escreveu a minha sina Maldita minha mãe, que entre os joelhos Não soubeste apertar, quando eu nascia, O meu corpo infantil! Maldita!

LEMBRANÇAS DE MORRER Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto, o poento caminheiro,
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LEMBRANÇAS DE MORRER Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto, o poento caminheiro, - Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro; Como o desterro de minh’alma errante, Onde fogo insensato a consumia: Só levo uma saudade - é desses tempos Que amorosa ilusão embelecia. Só levo uma saudade - é dessas sombras Que eu sentia velar nas noites minhas. De ti, ó minha mãe, pobre coitada, Que por minha tristeza te definhas! Se uma lágrima as pálpebras me inunda, Se um suspiro nos seios treme ainda, É pela virgem que sonhei. que nunca Aos lábios me encostou a face linda! Só tu à mocidade sonhadora Do pálido poeta deste flores. Se viveu, foi por ti! e de esperança De na vida gozar de teus amores. Beijarei a verdade santa e nua, Verei cristalizar-se o sonho amigo. Ó minha virgem dos errantes sonhos, Filha do céu, eu vou amar contigo! Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida, À sombra de uma cruz, e escrevam nela: Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

Desânimo Estou agora triste. Há nesta vida Páginas torvas que se não apagam,
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Desânimo Estou agora triste. Há nesta vida Páginas torvas que se não apagam, Nódoas que não se lavam… se esquecê-las De todo não é dado a quem padece… Ao menos resta ao sonhador consolo No imaginar dos sonhos de mancebo! Oh! voltai uma vez! eu sofro tanto! Meus sonhos, consolai-me! distraí-me! Anjos das ilusões, as asas brancas As névoas puras, que outro sol matiza. Abri ante meus olhos que abraseiam E lágrimas não tem que a dor do peito Transbordem um momento… E tu, imagem, Ilusão de mulher, querido sonho, Na hora derradeira, vem sentar-te, Pensativa e saudosa no meu leito! O que sofres? que dor desconhecida Inunda de palor teu rosto virgem? Por que tu’alma dobra taciturna, Como um lírio a um bafo d’infortúnio? Por que tão melancólica suspiras? Ilusão, ideal, a ti meus sonhos, Como os cantos a Deus se erguem gemendo! Por ti meu pobre coração palpita… Eu sofro tanto! meus exaustos dias Não sei por que logo ao nascer manchou-os De negra profecia um Deus irado. Outros meu fado invejam… Que loucura! Que valem as ridículas vaidades De uma vida opulenta, os falsos mimos De gente que não ama? Até o gênio Que Deus lançou-me à doentia fronte, Qual semente perdida num rochedo, Tudo isso que vale, se padeço! Nessas horas talvez em mim não pensas: Pousas sombria a desmaiada face Na doce mão e pendes-te sonhando No teu mundo ideal de fantasia… Se meu orgulho, que fraqueia agora, Pudesse crer que ao pobre desditoso Sagravas uma idéia, uma saudade… Eu seria um instante venturoso! Mas não… ali no baile fascinante, Na alegria brutal da noite ardente, No sorriso ebrioso e tresloucado Daqueles homens que, pra rir um pouco, Encobrem sob a máscara o semblante, Tu não pensas em mim. Na tua idéia Se minha imagem retratou-se um dia Foi como a estrela peregrina e pálida Sobre a face de um lago…

A Lagartixa A lagartixa ao sol ardente vive E fazendo verão o corpo espicha:
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A Lagartixa A lagartixa ao sol ardente vive E fazendo verão o corpo espicha: O clarão de teus olhos me dá vida, Tu és o sol e eu sou a lagartixa. Amo-te como o vinho e como o sono, Tu és meu copo e amoroso leito... Mas teu néctar de amor jamais se esgota, Travesseiro não há como teu peito. Posso agora viver: para coroas Não preciso no prado colher flores; Engrinaldo melhor a minha fronte Nas rosas mais gentis de teus amores Vale todo um harém a minha bela, Em fazer-me ditoso ela capricha... Vivo ao sol de seus olhos namorados, Como ao sol de verão a lagartixa.

Só levo uma saudade – é dessas sombras Que eu sentia velar nas noites minhas... De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
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Só levo uma saudade – é dessas sombras Que eu sentia velar nas noites minhas... De ti, ó minha mãe, pobre coitada, Que por minha tristeza te definhas! (...) Se uma lágrima as pálpebras me inunda, Se um suspiro nos seios treme ainda É pela virgem que sonhei... que nunca Aos lábios me encostou a face linda!